Rodrigo Gonçalves Pimentel relembra a evolução da sucessão em empresas familiares brasileiras

Por Diego Velázquez 7 Min de leitura
Rodrigo Gonçalves Pimentel

Rodrigo Gonçalves Pimentel, advogado, dedica parte de sua atuação a acompanhar como a sucessão em empresas familiares brasileiras mudou ao longo das últimas décadas, refletindo transformações econômicas, sociais e jurídicas do país. Práticas hoje consideradas recomendáveis eram, até poucas décadas atrás, praticamente ausentes do repertório de negócios familiares no Brasil, o que ajuda a explicar por que tantas famílias ainda hoje reproduzem modelos herdados de gerações passadas.

Compreender essa trajetória histórica explica por que esses modelos antigos, mesmo quando já se mostraram fonte recorrente de conflitos, continuam sendo replicados por famílias que nunca pararam para questionar sua origem. A distância entre o que se pratica hoje como recomendação técnica e o que se praticava há meio século é maior do que a maioria das famílias empresárias percebe no dia a dia.

Como a sucessão era tratada há décadas no Brasil?

Durante boa parte do século vinte, a sucessão em empresas familiares brasileiras costumava ocorrer de forma natural e pouco planejada, seguindo quase automaticamente a linha de descendência direta do fundador, sem qualquer avaliação sobre competência técnica ou interesse genuíno do sucessor na condução do negócio. Rodrigo Gonçalves Pimentel relembra que esse modelo refletia tanto a menor complexidade dos negócios da época quanto uma cultura empresarial na qual questionar a escolha natural de sucessão praticamente não fazia parte do repertório disponível às famílias, que raramente recorriam a orientação jurídica especializada para tratar do tema.

Rodrigo Gonçalves Pimentel
Rodrigo Gonçalves Pimentel

Sucessão como continuidade natural entre pai e filho

O modelo predominante durante boa parte do século passado concentrava expectativas quase exclusivamente na transmissão direta entre o fundador e o filho mais velho, ou o filho homem mais próximo, independentemente de outros herdeiros que pudessem ter interesse ou competência equivalente para conduzir o negócio. Um padrão comum em diversas culturas empresariais ao redor do mundo, e não exclusivo do Brasil, começou a ser questionado apenas quando famílias passaram a enfrentar as primeiras consequências práticas de escolhas feitas sem qualquer critério técnico. Filhas mulheres, em particular, frequentemente ficavam afastadas desse processo, independentemente de sua capacidade ou interesse em assumir a liderança do negócio familiar, refletindo padrões culturais mais amplos da sociedade brasileira da época.

Quando a sucessão passou a ser vista como processo técnico?

A partir da segunda metade do século passado, à medida que empresas familiares brasileiras cresceram e enfrentaram processos sucessórios mais complexos, a ideia de sucessão como processo técnico, e não apenas como continuidade natural de sangue, ganhou espaço entre famílias empresárias e entre profissionais que as assessoravam. Rodrigo Gonçalves Pimentel ilustra que esse período marcou o início de uma maior atenção a critérios como preparo profissional do sucessor, formalização de protocolos familiares e avaliação externa sobre a capacidade de gestão dos candidatos à liderança do negócio.

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O papel das crises econômicas na profissionalização da sucessão

Períodos de instabilidade econômica ao longo das últimas décadas do século passado expuseram, de forma dura, os limites de processos sucessórios conduzidos sem qualquer planejamento técnico. Empresas que atravessaram crises inflacionárias e mudanças bruscas de política econômica sem preparo adequado de seus sucessores frequentemente enfrentaram dificuldades adicionais justamente pela falta de competência técnica de quem assumia a liderança nesses momentos críticos. Experiências como essas, embora dolorosas para as famílias envolvidas, ajudaram a consolidar a percepção de que sucessão exige preparo, e não apenas expectativa de continuidade natural, lição que muitas famílias aprenderam da forma mais difícil, por meio de perdas patrimoniais significativas.

Rodrigo Gonçalves Pimentel esclarece que a crescente presença de escritórios especializados em direito sucessório e planejamento patrimonial, a partir das últimas décadas, contribuiu para popularizar conceitos hoje considerados básicos, como preparo prévio de sucessores e formalização de critérios objetivos de escolha. O acesso mais amplo a conhecimento técnico especializado ajudou a reduzir a distância entre grandes famílias empresárias, que já contavam com assessoria sofisticada há mais tempo, e negócios familiares de porte médio, que passaram a ter acesso a orientação equivalente apenas nas últimas décadas.

O que a história ensina às famílias empresárias de hoje?

Observar essa trajetória revela um padrão relevante: famílias que trataram sucessão exclusivamente como questão de linhagem, sem preparo técnico dos sucessores, enfrentaram historicamente mais dificuldades de continuidade do que aquelas que, ainda que de forma incipiente para os padrões da época, buscaram avaliar competência e interesse genuíno antes de definir quem assumiria a liderança do negócio. O padrão observado ao longo dessas décadas permanece relevante para famílias empresárias atuais, que dispõem hoje de instrumentos muito mais sofisticados do que os disponíveis há poucas décadas, mas que ainda precisam da mesma disposição para questionar tradições que já não servem mais aos interesses concretos do negócio.

Na interpretação de Rodrigo Gonçalves Pimentel, reconhecer essa evolução histórica ajuda famílias empresárias atuais a entender que os critérios técnicos hoje recomendados para processos de sucessão não surgiram de forma arbitrária, mas como resposta a décadas de experiências, muitas delas custosas, vividas por famílias que enfrentaram sucessões mal planejadas. Famílias que ignoram essa lição tendem a repetir, ainda que em contextos econômicos completamente diferentes, os mesmos erros que geraram tantas dificuldades para gerações anteriores de empresários brasileiros. A história, nesse sentido, funciona menos como curiosidade e mais como advertência para quem ainda trata sucessão como assunto a ser resolvido quando o tempo chegar.

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