O avanço dos casos de mpox no Brasil voltou ao centro do debate sanitário após o país registrar 90 infecções confirmadas e a inclusão de mais dois estados na lista de ocorrências. O cenário, embora ainda distante de um quadro de emergência nacional, exige atenção redobrada das autoridades e da população. Neste artigo, analisamos o que explica o aumento dos registros, quais os desafios para conter a disseminação da doença e por que informação qualificada e prevenção continuam sendo as principais estratégias de controle.
A mpox, anteriormente conhecida como varíola dos macacos, é uma infecção viral que ganhou notoriedade global em 2022, quando surtos foram registrados em diversos países fora do continente africano. No Brasil, os casos reaparecem de forma pontual, mas suficiente para acender um sinal de cautela. O fato de novos estados passarem a integrar o mapa de ocorrências indica que o vírus mantém circulação ativa, ainda que sob monitoramento.
O aumento para 90 casos confirmados não deve ser interpretado apenas como um dado numérico. Ele revela a necessidade de vigilância epidemiológica constante e reforça a importância de sistemas de notificação eficientes. Quando mais estados registram ocorrências, amplia-se o desafio de coordenação entre secretarias de saúde, unidades básicas e hospitais de referência.
A mpox é transmitida principalmente por contato próximo com lesões de pele, secreções corporais ou objetos contaminados. Também pode ocorrer transmissão por gotículas respiratórias em interações prolongadas. Os sintomas mais comuns incluem febre, dor de cabeça, cansaço, inchaço dos linfonodos e erupções cutâneas que evoluem para lesões. Em grande parte dos casos, a doença é autolimitada, mas pode gerar complicações, especialmente em pessoas com imunidade comprometida.
Diante desse contexto, é fundamental evitar dois extremos igualmente prejudiciais: o pânico coletivo e a negligência. A experiência recente com a pandemia de covid-19 mostrou como a desinformação pode ampliar danos e dificultar estratégias de controle. No caso da mpox no Brasil, a comunicação clara e baseada em evidências é um instrumento decisivo para impedir estigmatizações e garantir que a população reconheça sinais precoces da doença.
Outro ponto relevante envolve a testagem e o acesso ao diagnóstico. Quanto mais cedo a infecção é identificada, maiores são as chances de isolamento adequado e interrupção da cadeia de transmissão. Isso depende de profissionais capacitados para reconhecer sintomas e de infraestrutura laboratorial capaz de processar exames com agilidade. Investimentos contínuos em saúde pública tornam-se, portanto, indispensáveis.
A ampliação geográfica dos casos também impõe reflexão sobre mobilidade urbana e fluxos interestaduais. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, deslocamentos frequentes facilitam a circulação de vírus. Políticas de monitoramento devem considerar essa característica estrutural, fortalecendo a integração de dados entre regiões.
Além da resposta institucional, o comportamento individual desempenha papel determinante. Medidas simples, como evitar contato direto com lesões suspeitas, manter higiene adequada das mãos e buscar atendimento médico diante de sintomas compatíveis, reduzem significativamente o risco de propagação. A responsabilidade compartilhada é um dos pilares da saúde coletiva.
É igualmente importante combater o estigma. Em surtos anteriores, determinados grupos foram indevidamente associados à doença, o que dificultou o acesso a informações e serviços de saúde. A mpox não escolhe perfil social, orientação ou faixa etária. Qualquer pessoa exposta ao vírus pode ser infectada. Políticas públicas eficazes devem ser inclusivas e orientadas por critérios técnicos, não por preconceitos.
Do ponto de vista estratégico, o Brasil dispõe de experiência acumulada no enfrentamento de emergências sanitárias. O Sistema Único de Saúde possui capilaridade e capacidade de mobilização, embora enfrente desafios históricos de financiamento e gestão. O momento atual reforça a necessidade de consolidar investimentos em vigilância epidemiológica, campanhas educativas e capacitação profissional.
A vacinação, quando indicada pelas autoridades sanitárias, também integra o conjunto de ferramentas de controle. Embora não haja recomendação de imunização em massa neste momento, grupos específicos podem ser contemplados conforme avaliação de risco. Transparência nas decisões e divulgação clara dos critérios fortalecem a confiança da população.
O registro de 90 casos de mpox no Brasil não configura, por si só, um cenário alarmante, mas serve como alerta preventivo. Doenças infecciosas exigem monitoramento constante, planejamento e respostas proporcionais ao risco. Ignorar sinais iniciais pode custar caro no futuro, enquanto agir com equilíbrio tende a preservar recursos e evitar sobrecarga do sistema de saúde.
O desafio que se apresenta é manter a vigilância ativa sem alimentar medo desnecessário. Informação de qualidade, políticas públicas bem coordenadas e participação consciente da sociedade formam a base para conter a disseminação da mpox. A capacidade de aprender com experiências recentes e agir de forma antecipada pode determinar o rumo desse novo capítulo sanitário no país.
Autor: Diego Velázquez

