A mais recente pesquisa divulgada pela CNN Brasil, com base em dados do AtlasIntel, revelou um dado que merece atenção: a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva desperta mais medo em parte do eleitorado do que uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O levantamento não apenas dimensiona percepções eleitorais, mas também evidencia o grau de polarização que ainda marca o cenário político brasileiro. Ao longo deste artigo, analisamos o contexto dessa percepção, seus impactos no debate público e o que ela revela sobre o comportamento do eleitor.
A palavra-chave medo, associada ao debate político, tornou-se um termômetro importante na leitura das eleições brasileiras. Desde 2018, o país vive um ambiente marcado por disputas ideológicas intensas, narrativas antagônicas e forte mobilização nas redes sociais. Nesse cenário, a figura de Lula, líder histórico da esquerda e atual presidente, continua a provocar reações profundas, tanto de apoio quanto de rejeição.
A pesquisa Atlas sugere que a reeleição de Lula causa receio em uma parcela significativa da população. Esse sentimento pode estar relacionado a fatores econômicos, à memória de escândalos de corrupção ligados a governos anteriores do Partido dos Trabalhadores e à percepção de instabilidade fiscal. Além disso, parte do eleitorado associa a continuidade do atual governo a possíveis dificuldades no controle da inflação, na geração de empregos e na atração de investimentos.
Por outro lado, a eventual eleição de Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, também carrega simbolismos. Seu nome representa a manutenção de um projeto político identificado com pautas conservadoras, defesa de valores tradicionais e discurso mais rígido na segurança pública. Ainda assim, segundo o levantamento, o temor associado a essa possibilidade se mostrou menor quando comparado à reeleição de Lula.
Esse dado não significa, necessariamente, que Flávio Bolsonaro tenha maior aprovação popular. O medo captado pela pesquisa está mais relacionado à rejeição do que à preferência direta. Em outras palavras, trata-se de uma medição emocional, que revela quais cenários geram maior insegurança no imaginário coletivo.
A reeleição de Lula também é vista por críticos como um indicativo de continuidade de políticas de expansão de gastos públicos e maior intervenção estatal na economia. Em um país que ainda busca estabilidade fiscal e crescimento sustentável, qualquer sinal de desequilíbrio nas contas públicas tende a gerar apreensão, especialmente entre empresários e investidores. O receio, nesse caso, está ligado à previsibilidade econômica e ao ambiente de negócios.
Por outro lado, é importante contextualizar que o medo político nem sempre se traduz em votos. Muitas vezes, ele mobiliza bases oposicionistas, fortalece campanhas adversárias e intensifica o debate ideológico. Ao mesmo tempo, pode reforçar o engajamento dos apoiadores, que veem na crítica uma tentativa de deslegitimação.
O cenário também demonstra que o Brasil permanece dividido entre dois polos políticos bem definidos. A figura de Lula concentra críticas relacionadas à condução econômica e à herança de escândalos passados, enquanto o campo bolsonarista ainda carrega o peso de controvérsias institucionais e tensões democráticas vividas nos últimos anos. Nesse ambiente, o eleitor tende a escolher menos pelo entusiasmo e mais pela rejeição ao adversário.
Outro ponto relevante é a influência da comunicação digital. Redes sociais amplificam discursos, reforçam bolhas ideológicas e potencializam sentimentos negativos. O medo, quando explorado politicamente, torna-se ferramenta estratégica. Narrativas que associam o adversário a crises econômicas, riscos institucionais ou retrocessos sociais acabam moldando percepções antes mesmo da consolidação oficial das candidaturas.
A pesquisa Atlas, portanto, deve ser lida como um retrato momentâneo do humor do eleitorado. Ela revela mais sobre sentimentos do que sobre resultados definitivos. O processo eleitoral brasileiro é dinâmico, influenciado por variáveis como desempenho econômico, alianças partidárias, debates públicos e acontecimentos inesperados.
No contexto prático, compreender esse dado é essencial para partidos e pré-candidatos. Campanhas tendem a ajustar estratégias com base em índices de rejeição e medo. A redução da rejeição costuma ser tão ou mais importante que o aumento da intenção de voto. Afinal, em disputas polarizadas, vence quem consegue ampliar sua base sem provocar rejeição massiva no centro do eleitorado.
Para o cidadão, o levantamento serve como alerta sobre o impacto das emoções na política. Decisões baseadas exclusivamente no medo podem limitar a análise racional de propostas, planos de governo e capacidade administrativa. O debate público ganha qualidade quando se desloca do campo emocional para o campo programático.
O fato de a reeleição de Lula gerar mais medo que a eleição de Flávio Bolsonaro indica que o atual governo permanece no centro das atenções e das críticas. Governar, afinal, expõe fragilidades e amplia cobranças. Já possíveis candidaturas futuras ainda operam no campo das expectativas.
À medida que o próximo ciclo eleitoral se aproxima, pesquisas como essa ajudam a entender tendências e desafios. Mais do que medir preferências, elas revelam o estado de espírito do país. E, no Brasil contemporâneo, o sentimento predominante ainda é o da polarização intensa, que exige maturidade política, responsabilidade institucional e diálogo para que o processo democrático avance com equilíbrio.
Autor: Diego Velázquez

