Wander Aguilera Almeida, intermediador no mercado de grãos, visualizou de perto o quanto a dependência brasileira de fertilizantes importados pode pesar sobre o custo de produção, desde que o conflito na Ucrânia bagunçou o mercado global, distorção que ainda não se desfez completamente anos depois do início da guerra. O Brasil importa cerca de oitenta e cinco por cento de todo o fertilizante que consome, e essa dependência sobe para perto de noventa e cinco por cento quando o assunto é potássio, insumo essencial para soja e milho e usado em praticamente toda lavoura de grande escala espalhada pelo país.
Veja a seguir por que essa dependência preocupa e o que está sendo feito para reduzi-la ao longo dos próximos anos.
Uma mercadoria concentrada em poucas mãos
Rússia e Belarus juntos respondem por parcela relevante das exportações mundiais de potássio, concentração que deixa o mercado global vulnerável a qualquer sanção, embargo ou instabilidade política nesses dois países fornecedores historicamente dominantes nesse segmento.
Wander Aguilera Almeida sublinha que essa concentração geográfica é o verdadeiro problema estrutural: não basta o Brasil pagar mais caro, é preciso que exista oferta física suficiente circulando pelo mundo, e minas de potássio levam anos para entrar em operação plena depois de descobertas, diferente de uma fábrica que pode simplesmente aumentar turno de produção para atender pico de demanda.
Por que o preço nunca voltou ao patamar anterior?
Mesmo com recuo em relação aos picos registrados logo após o início do conflito, o preço internacional do potássio segue estruturalmente mais alto do que no período anterior à guerra, e novos fornecedores como Canadá e Marrocos não conseguiram ampliar a produção na velocidade que o mercado exigia naquele momento de maior urgência.
Essa rigidez de oferta afeta diretamente a relação de troca do produtor brasileiro, já que a quantidade de sacas de soja necessária para comprar uma tonelada de fertilizante aumentou em comparação ao período anterior à crise global, apertando a margem de quem já tem custo fixo elevado na propriedade.

Tensões em outras regiões produtoras de insumos nitrogenados também contribuem para manter o cenário apertado, somando-se ao problema já existente com o potássio importado, principalmente do leste europeu, formando um quadro de pressão simultânea sobre diferentes tipos de fertilizante essenciais para a lavoura.
Uma resposta brasileira ainda em construção
Um projeto de mineração de potássio na região amazônica avança com a promessa de produzir a um custo competitivo com o de minas canadenses e russas, o que representaria alívio real na dependência externa caso a operação avance conforme planejado pelos investidores responsáveis, reduzindo a exposição do país a fornecedores estrangeiros.
Wander Aguilera Almeida avalia que esse tipo de projeto, mesmo promissor, enfrenta um caminho longo até começar a produzir em escala: licenciamento ambiental, consulta a comunidades locais e a própria complexidade de extrair um mineral a centenas de metros de profundidade consomem tempo que nenhuma urgência de mercado consegue acelerar de verdade, por mais que o preço do insumo pressione o produtor.
O que o produtor pode fazer enquanto isso?
Negociar a compra de fertilizante com mais antecedência, em vez de esperar o momento mais próximo do plantio, reduz a exposição a picos de preço que tendem a se intensificar justamente na época de maior demanda simultânea, quando todo produtor da região busca fechar contrato ao mesmo tempo.
Portanto, na leitura de Wander Aguilera Almeida, entender essa dependência estrutural, e não tratá-la como problema passageiro, é o que ajuda o produtor a planejar o custeio da safra com mais realismo, em vez de torcer para que o cenário externo melhore sozinho de um ciclo para o outro sem qualquer esforço próprio de planejamento.

