Avaliado em 1982 com a participação de Alfredo Moreira Filho, engenheiro agrônomo, o Projeto Tucumã, no Pará, foi uma das mais ambiciosas iniciativas de desenvolvimento regional da Amazônia brasileira. O contato direto com aquela experiência revela padrões de erro que, décadas depois, continuam se repetindo em iniciativas territoriais de diferentes escalas e contextos.
Os erros que os projetos continuam cometendo
Projetos de desenvolvimento regional concebidos em centros urbanos distantes do território de implantação tendem a reproduzir um conjunto de erros que aparece com regularidade suficiente para ser tratado como padrão, não como exceção. O primeiro é superestimar a capacidade da infraestrutura de transformar por si só a realidade econômica local, como se estradas e energia elétrica automaticamente gerassem os negócios e as atividades que deveriam se instalar ao redor delas.
O segundo erro recorrente é subestimar o tempo necessário para que resultados econômicos reais apareçam. Projetos de colonização, como o de Tucumã, foram concebidos com horizontes de retorno que não correspondiam à complexidade das transformações sociais e econômicas que precisavam acontecer para que as metas fossem alcançadas. A pressão por resultados dentro de ciclos políticos de quatro anos é incompatível com processos de desenvolvimento que precisam de décadas para se consolidar.
A complexidade social como variável ignorada
O Projeto Tucumã reuniu, em um território relativamente pequeno, agricultores vindos do Sul e do Sudeste, garimpeiros, madeireiros, grileiros e populações indígenas Caiapó e Xicrin, cada grupo com interesses radicalmente incompatíveis com os dos outros. A tensão entre esses grupos era tão intensa que Alfredo Moreira Filho descreveu a situação como um barril de pólvora, pronto para explodir a qualquer momento.
Nenhum planejamento de engenharia havia incorporado adequadamente essa variável. A infraestrutura foi projetada para receber colonos agricultores. O território real recebeu uma combinação de grupos com históricos de conflito e interesses irreconciliáveis, situação que a infraestrutura sozinha não tinha nenhuma capacidade de resolver.

Por que o mesmo padrão continua se repetindo?
Décadas depois do Projeto Tucumã, projetos de desenvolvimento regional continuam sendo concebidos com ênfase excessiva na infraestrutura física e atenção insuficiente às dinâmicas sociais, políticas e culturais do território. A razão é que infraestrutura é mensurável, fotografável e inaugurável. Dinâmicas sociais são complexas, demoradas de mapear e impossíveis de fotografar em uma cerimônia de corte de fita.
A experiência do Projeto Tucumã, registrada com a riqueza de detalhes que só quem estava presente consegue capturar, produziu um documento sobre o que projetos de desenvolvimento regional precisam considerar, que permanece relevante décadas depois de ter sido vivido.
O papel do conhecimento local em projetos de grande escala
Projetos que funcionam em territórios complexos geralmente têm em comum um elemento que projetos que fracassam raramente têm: o envolvimento genuíno de quem conhece aquele território de dentro, não apenas de quem o estudou à distância. O conhecimento local sobre quem são os atores relevantes, quais são os conflitos preexistentes e o que realmente importa para as populações afetadas não está em nenhum relatório técnico.
Engenheiros agrônomos como Alfredo Moreira Filho, que passaram anos em extensão rural no Amazonas antes de participar de projetos de colonização, chegavam ao território com uma camada de conhecimento que técnicos recém-chegados simplesmente não tinham, diferença que se revelava decisiva nos momentos em que o projeto encontrava resistências que o planejamento original não havia previsto.
O que esses projetos legaram além dos conflitos?
O município de Tucumã existe hoje como cidade formada por descendentes dos colonizadores originais, dos garimpeiros e dos trabalhadores que chegaram nas décadas de 1980 e 1990. O projeto, com todos os seus erros e conflitos, deixou uma cidade que não existia antes. O balanço final é mais complexo do que qualquer narrativa de sucesso ou de fracasso consegue capturar isoladamente.
Alfredo Moreira Filho, ao incluir essa experiência em seu livro, não a apresenta como história de triunfo nem como história de desastre, mas como o que ela realmente foi: um projeto imenso e contraditório, cheio de erros que poderiam ter sido evitados e de aprendizados que deveriam ter informado os projetos que vieram depois.

