Para onde a embalagem está levando o futuro da impressão no Brasil? 

Por Olivia Hartvale 5 Min de leitura
Dalmi Defanti

O maior volume de tinta impressa no Brasil não está em revista, jornal ou catálogo. Está em embalagem, que responde por perto de metade da produção gráfica nacional, segundo a ABIGRAF. Dalmi Defanti Cuiabá, fundador da Gráfica Print, indica que esse deslocamento explica boa parte do que vem pela frente para o design gráfico e para a impressão.

O setor não encolheu; mudou de função. Perdeu espaço como veículo de informação em massa, tarefa que migrou para as telas, e ganhou peso como objeto físico que a marca entrega na mão de alguém. A consequência aparece nos dois lados do balcão. Muda o que se pede a uma gráfica e muda, sobretudo, o que se espera de quem projeta.

Para onde migrou o volume da produção gráfica?

O parque gráfico brasileiro é pulverizado. Um levantamento sobre a indústria nacional contabiliza mais de 15 mil empresas e cerca de 175 mil empregos diretos, a maior parte em operações pequenas, que atendem comércio local e disputam o mesmo tipo de pedido. Nesse desenho, quem compete apenas por preço fica exposto a qualquer concorrente com máquina parecida.

A saída tem sido especializar. Uma gráfica domina acabamento de embalagem, outra resolve dado variável, outra entrega prazo curto com cor previsível. Dalmi Defanti aponta que, do lado de quem produz, a pergunta deixou de ser qual equipamento comprar e passou a ser qual problema a empresa quer resolver melhor do que os vizinhos.

Tiragem curta muda o que o designer precisa entregar

Uma marca pede quinhentas embalagens divididas em doze versões de rótulo, cada uma com informação de origem diferente. Não existe arte fechada que resolva o pedido. Existe gabarito: uma estrutura com áreas definidas, regras de hierarquia e limites de texto que continuam funcionando quando o conteúdo troca. Foi isso que a impressão digital tornou possível e que a demanda passou a exigir.

Dalmi Defanti
Dalmi Defanti

Projetar assim obriga a decidir antes o que acontece nos casos difíceis. Nome longo demais, foto de baixa resolução enviada pelo cliente, tradução que ocupa o dobro do espaço previsto. O design deixa de ser uma imagem aprovada e vira um conjunto de regras que sobrevive à variação. Quem entrega apenas o arquivo bonito devolve o problema para a produção resolver na pressa.

O que a automação assume?

Boa parte da pré-impressão já roda sozinha. Programas de fechamento conferem sangria, resolução, perfil de cor e fontes ausentes antes que alguém abra o arquivo, e ferramentas de geração automática montam dezenas de variações em minutos. Nessa etapa, o erro é objetivo, a regra é clara e a máquina cumpre a tarefa com mais constância do que qualquer revisão manual.

O limite aparece uma casa adiante. Nenhum verificador automático decide se aquele papel é o certo para a marca, nem se o relevo vale o custo naquele produto. Conformidade se automatiza, intenção não. A primeira responde se o arquivo está correto. A segunda responde se o material faz sentido.

O impresso volta a ser escolha, não hábito

Imprimir deixou de ser rotina e virou decisão. Ninguém mais imprime porque sempre imprimiu, e cada peça precisa justificar por que existe em papel quando existir em tela custaria menos. Esse filtro reduziu volume e elevou exigência, o que explica a coexistência de tiragens menores com acabamentos mais sofisticados. Some o impresso sem função e resista ao que a tela não entrega: presença física e permanência.

Conforme Dalmi Defanti, o futuro do design gráfico e da impressão no Brasil será menos sobre quantidade e mais sobre pertinência. Uma indústria que produz menos peças e responde por mais decisões de marca cobra outro tipo de profissional: alguém que entenda de papel, de processo e do motivo pelo qual aquele impresso foi encomendado.

Compartilhe este artigo