Pantanal na cheia ou na seca: O que cada estação revela

Por Olivia Hartvale 5 Min de leitura
Wilson Bachega Junior

Wilson Bachega Junior, entusiasta do pantanal, salienta que o bioma ocupa uma área de planície que se estende por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e por trechos da Bolívia e do Paraguai, e é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade. Ainda assim, muita gente planeja a visita como se fosse um destino de paisagem fixa. Não é. O mesmo campo pode estar coberto de água em um mês e virar pasto seco poucos meses depois.

Para quem acompanha a região, essa alternância é justamente o que torna o bioma tão singular. Escolher entre a cheia e a seca não é decidir qual época é melhor, e sim qual Pantanal se quer conhecer.

O pulso das águas que define o calendário

As chuvas se concentram, em linhas gerais, entre o fim da primavera e o início do outono. A água, porém, não sobe ao mesmo tempo em todo o território. Como a planície tem declive muito suave, o volume escoa devagar de norte para sul, e regiões do Pantanal sul-mato-grossense podem atingir o pico da cheia meses depois da parte mato-grossense.

Esse descompasso tem efeito direto sobre a viagem. Duas pessoas que visitam o bioma na mesma semana, em cidades diferentes, podem encontrar cenários opostos. Por isso, a pergunta certa antes de reservar é sobre o nível da água naquela sub-região, não sobre o mês no calendário.

O que a seca entrega ao visitante

Com o recuo das águas, os animais passam a se concentrar ao redor das lagoas e dos rios que restam. É o período preferido de quem busca observação de fauna, já que jacarés, capivaras, aves aquáticas e cervos ficam mais fáceis de encontrar. Wilson Bachega Junior aponta a Transpantaneira, estrada de terra que liga Poconé a Porto Jofre e atravessa mais de cem pontes de madeira, como exemplo de roteiro que ganha outra dimensão nessa fase.

No fim dessa estrada, às margens do rio Cuiabá, fica uma das regiões mais conhecidas para avistamento de onça-pintada em ambiente natural, feito geralmente a bordo de barcos. Há um custo, contudo. A seca também é a temporada de maior risco de incêndios, e a vegetação ressecada exige atenção redobrada de visitantes e operadores.

A cheia que pouca gente considera

Imagine um passeio de barco por onde, semanas antes, passavam carros e cavalos. Na cheia, boa parte do deslocamento muda de meio, e o Pantanal mostra sua face mais extensa: campos alagados, vegetação verde e um espelho d’água que acompanha o horizonte.

Wilson Bachega Junior
Wilson Bachega Junior

A fauna continua presente, mas espalhada, o que torna os avistamentos menos previsíveis. Em compensação, a paisagem atinge seu auge e as pousadas costumam estar menos cheias. Quem pensa em pesca precisa conferir as regras do defeso da piracema, período de reprodução dos peixes que coincide com o início das chuvas e restringe a atividade nos rios da região.

Como escolher sem frustração

O primeiro passo é definir a prioridade. Quem quer fotografar onça ou ver grande concentração de animais tende a se dar melhor na seca. Quem prefere paisagem, silêncio e passeios embarcados encontra mais na cheia. Entusiastas do bioma, entre eles Wilson Bachega Junior, consideram ainda os meses de transição, quando a água começa a baixar e as duas faces convivem.

Depois, vale consultar pousadas e guias locais sobre as condições atuais de acesso. Estradas de terra podem ficar intransitáveis nas chuvas, e alguns pontos só são alcançados por barco ou avião de pequeno porte.

Um destino que nunca se repete

Talvez a maior lição do Pantanal seja que não existe uma visita completa. Cada estação apresenta um ecossistema diferente, com outros animais em evidência, outros caminhos e outra relação entre terra e água.

Por isso, quem volta à região em épocas distintas raramente tem a sensação de repetir a viagem. Wilson Bachega Junior salienta, nesse contexto, que o ciclo das águas, que organiza a vida de plantas, bichos e moradores, acaba organizando também a experiência de quem chega como visitante, e entender esse ritmo é o que transforma um passeio em descoberta.

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